Mayweather versus Pacquiao ou emissoras de TV de versus internet?

Artigo originalmente publicado no a redação.

Eventos esportivos não possuem tanta “longevidade”: enquanto que uma série de TV pode ser assistida anos após o encerramento desta, uma partida de boxe só é divertida se acompanhada ao vivo. Os mais fanáticos não se importam de assistirem às reprises depois – mesmo sabendo quem saiu vitorioso – mas o público comum conta com o fator surpresa e a adrenalina de não saber o resultado.

Isso vale ainda mais quando estamos falando da suposta ‘luta da década’. No dia 2 de maio, duas lendas do boxe se enfrentaram no ringue: Mayweather e Pacquiao. Os ingressos para assisti-la ao vivo possuíam preços estratosféricos (valores variando entre R$ 4.500 e R$ 22.500). Aqueles que não podiam ver a luta ao vivo em Las Vegas tiveram que optar por comprar planos pay-per-view com preços também salgados (variando entre 90 e 300 reais).

Estima-se que a luta rendeu quantias absurdas: 1,5 bilhão de reais é o valor total arrecadado entre renda com pay-per-view, publicidade e direitos de TV para cerca de 150 países; e 222 milhões de reais foram arrecadados com venda de ingressos, apesar de somente 16.800 espectadores poderem presenciar in loco o combate (*).

Com tanta publicidade e hype em cima do evento, e considerando os preços altos dos ingressos e dos planos pay-per-view, muitas pessoas recorreram a canais na Internet que transmitissem a luta online e em tempo real. E esses canais, é claro, eram ilegais. Tentando evitar que a pirataria do evento ocorresse, emissoras de TV como HBO e Showtime entraram com ações judiciais contra sites (boxinghd.net e sportship.org) que anunciavam que o streaming da luta seria feito.

Nas Filipinas, um professor foi preso por anunciar que também faria a transmissão. Assim, em face da dificuldade de encontrar sites que fossem exibir o evento (sem falar que os serviços de pay-per-view tiveram problemas de transmissão), muitas pessoas recorreram ao Periscope (um aplicativo – já citado em outro texto dessa coluna – que possibilita que pessoas façam transmissões de vídeos em tempo real para os outros usuários) e ao seu concorrente, Meerkat, que permite que seus usuários façam o streaming na própria página do Facebook.2

Várias das transmissões feitas através do Periscope foram bloqueadas pela própria plataforma, que expressamente proíbe a reprodução de conteúdos autorais, “especialmente” aqueles que possuem um pay-per-view no valor acima de 90 dólares. Porém, haviam tantos usuários transmitindo o combate que o bloqueio de alguns streams não era realmente um problema: bastava buscar por outro. Algumas transmissões chegaram a ter uma plateia de até 10 mil espectadores.

Algo que dificultou o bloqueio dos vários streams é que o Periscope não os divide em categorias; todas as transmissões ficam misturadas, inclusive com conteúdos pornográficos ou violentos. Enxergando essa falha, a startup Dextro desenvolveu um programa chamado “Stream” que realiza a separação das categorias para o usuário. O Stream poderá ser usado para ajudar os titulares de direitos autorais a localizarem e pedirem a remoção das transmissões ilegais de suas obras.

A situação que parecia uma crise para alguns (as emissoras de TV) acabou sendo uma oportunidade para empreendedores espertos. Enquanto isso, a briga de gato e rato entre titulares de direitos autorais e novas soluções tecnológicas parece perdurar: uns sofrem com ela; outros se adaptam aos novos ambientes.

(*) Com um público quatro vezes menor que o do Super Bowl, a luta arrecadará 14 milhões de dólares (mais de R$ 40 mi) a mais que o maior evento do futebol americano.
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