Realidade não tão virtual

Originalmente postado no a redação.

Você já imaginou como seria viver a vida de uma outra pessoa durante um mês? Alguns filmes flertaram com a ideia, como “A Outra Face”, “Sexta-Feira Muito Louca” e o brasileiro “Se Eu Fosse Você“. Mas estas histórias usaram mecanismos mágicos, improváveis ou misteriosos para explicar o fenômeno. E se viver a vida de outra pessoa fosse algo possível, ao alcance de qualquer um, a qualquer momento?

“Seeing I” é um projeto artístico-social que tem exatamente essa proposta. O artista Mark Farid usará por 28 dias um óculos de realidade virtual que estará transmitindo tudo o que uma outra pessoa vê e escuta, permitindo que ele seja imerso em um cotidiano alheio sem qualquer interação externa.

Farid viverá a vida de outro enquanto seu corpo fica em uma galeria de arte, sendo observado 24 horas por dia pelas visitantes. No mesmo ambiente estarão acontecendo discussões sobre como a tecnologia digital influencia nossas vidas. Os idealizadores do projeto consultaram uma série de psiquiatras, neurocientistas e filósofos sobre os riscos que Mark irá correr, porém nenhum foi capaz de oferecer alguma resposta significativa. E ainda falta encontrar um voluntário que oferecerá sua vida para ser vivida por Farid.

A questão do experimento é: o artista começará a acreditar nessa nova vida como se fosse a dele? Essencialmente, o projeto trabalha com a afirmação de que hoje a tecnologia é parte de nós e da nossa experiência do mundo. Pensando desta forma, talvez o projeto seja uma demonstração exagerada e pouco prática. Mas se pararmos pra pensar nos hábitos indispensáveis que adquirimos nos últimos cinco anos, veremos que a maioria deles foram viabilizados pela tecnologia.

De fato, a divisão entre real e virtual está cada dia mais tênue. Inclusive, aqueles que ainda fazem esta divisão são encarados como antiquados, já que é bem claro que ações “virtuais“ têm efeitos imediatos no “mundo real“. Apenas em 2014, vimos incontáveis episódios em que pessoas sofreram na realidade consequências de atitudes tomadas na Internet, como o caso do piloto da Avianca que postou frases preconceituosas no Facebook e foi demitido da companhia área. Contudo, a relação “homem x tecnologia” é, até a presente data, pautada por experiências não imersivas. Isso significa que, por exemplo, você sempre acessou o Twitter sabendo que ele está sendo exibido numa tela de computador ou celular, com um espaço físico separando você do site.

Os óculos virtuais utilizados por Mark no “Seeing I“ alteram esse paradigma. Apesar de tecnologias imersivas não serem novidade, aparelhos como o “OculusRift” permitem que a imersão seja praticada com uma qualidade totalmente inédita. Quando estes óculos se popularizarem e integrarem nosso cotidiano, como os computadores e smartphones, o impacto cultural, social e psicológico poderá ser gigantesco.

Autores da ficção científica já deram algumas amostras. O gênero cyberpunk, que conta com obras aclamadas como “True Names” (1981) de Vernon Vinge e “Neuromancer” de William Gibson, explora um futuro onde conectar sua mente diretamente num ciberespaço é algo cotidiano (e frequentemente arriscado). Neal Stephenson, o autor de “Snow Crash“, cunhou o termo “metaverso“, que sugere que a realidade virtual pode ser composta por diferentes espaços virtuais conectados, formando um grande universo completamente digital. É claro que usar o Oculus Rift pra jogar Second Life é bem diferente de mergulhar de ponta num universo simulado como o do filme Matrix. Mas a tecnologia caminha nessa direção.

O Facebook recentemente comprou a empresa criadora do Oculus Rift, fato que por si só já indica a importância e potencial desta tecnologia no curto prazo. Pode-se imaginar uma situação onde, ao invés de entrar no chat do Facebook para conversar com seus amigos, você colocaria seus óculos de realidade virtual e se conectaria a um mundo tridimensional. Nele, você se materializaria como quisesse e interagiria em primeira pessoa com outros “jogadores“ controlados por pessoas reais (ou não). Em outras palavras, seria o mesmo que habitar outro universo – ou melhor, o metaverso.

Caso isso aconteça – e o desenvolvimento tecnológico indica que sim – estaremos encarando mais uma possibilidade de interação viabilizada pela tecnologia, só que desta vez muito mais radical e poderosa (já existem projetos para desenvolver o sentido do tato na realidade virtual). A partir do momento que experimentarmos um aparato que simule, com qualidade, tudo o que vivemos no mundo “real“, não se tornará mais difícil ainda diferenciar quem somos na realidade daquilo que projetamos no virtual? Ou ainda, será possível acreditarmos que na verdade o virtual é que é o real?

O experimento de Mark Farid, se viabilizado no Kickstarter, trará algumas respostas para estas dúvidas. Até lá, não temos escolha a não ser considerar a tentação de viver em um mundo onde todos nossos sonhos são realizáveis e onde tudo é possível. O que você escolheria?

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